Vilket är vänsterns eget ansvar för att dess sociala funktion har decimerats? Jo, de har förlorat sin förmåga att läsa av världen och svara på väljarnas behov, menar skribenten Paulo Mendes Pinto i tidningen Público. I stället ägnar de sig åt symbolpolitik.
O poder cristalino dos símbolos: Mariana Mortágua e a Palestina, uma escolha
“Colocar o Kufiya, o típico lenço palestiniano, ao discursar na noite eleitoral é esquecer que o partido luta politicamente e elege em Portugal.
Muito se tem escrito sobre a responsabilidade da própria esquerda na destruição da sua função social. Sim, porque mais do que um decréscimo de votos, a esquerda, um pouco por todo o chamado Ocidente, perdeu a sua capacidade de leitura do mundo, de corresponder às necessidades do seu eleitorado.
Há vários anos que vários investigadores e pensadores, entre eles, Francis Fukuyama, alertaram para aquilo que os resultados dos últimos ciclos eleitorais vieram confirmar: o lugar dado a determinadas causas foi a morte da esquerda que, assim, perdeu o seu espaço como caixa de ressonância dos problemas da sociedade.
E, se esta tese tem fragilidades óbvias por vir dos setores liberais, a verdade é que os seus dados são verdadeiros e as conclusões potencialmente acertadas. E, na noite eleitoral, no meio do desaire brutal da esquerda em que apenas o Livre conseguiu crescer, uma atitude, um símbolo, marcou de forma cristalina esta verdade: Mariana Mortágua, num arrazoado em que se libertou das responsabilidades pela derrota do seu partido, apresentou-se com o Kufiya, o típico lenço palestiniano.
Sim, também eu tenho críticas, e muitas, a fazer à forma como o governo israelita tem atuado em relação à Palestina. Mas colocar esse lenço ao discursar na noite eleitoral é esquecer que o partido luta politicamente e elege em Portugal. E este gesto não foi isolado; foi repetido ao longo dos últimos anos.
E este é o problema que tomou muita esquerda como refém. As forças políticas de esquerda deixaram órfãos os cidadãos que esperavam que esses partidos lutassem pela sua qualidade de vida. Mas não. Para Mariana Mortágua, o que imageticamente mais importa, o centro da narrativa da luta, passa, fundamentalmente, por uma questão de política internacional, esquecendo o nacional.
Mas pior. Ao fazer o que fez, Mariana Mortágua não só nos mostra como muita esquerda perdeu o seu lugar e função social, como nos mostra que se baralham as coisas, dando lugar a uma postura que facilmente resvala para o antissemitismo primário.
Este é um exemplo de como é necessário recriar a esquerda, dando-lhe novamente um lugar social, uma capacidade de luta que perdeu ao distanciar-se da realidade, ao deixar-se fazer refém de causas de elites muito circunscritas a que, infelizmente, parece estar reduzida.
Este é o momento para perceber o que é a política: essa arte magna de gerir a vida das comunidades, não reside em vontades de elites e de minorias que se autodefinem como detentoras da verdade, mas sim nas grandes equações transversais do coletivo.
É aqui que a esquerda se deverá reencontrar. Ou desaparecerá.”